
O fato parecia simples: eu nunca entendi as mulheres. Apesar de ser um interesse de natureza, talvez, supérflua, de caráter arcaico e completamente instintivo era o prego no meu sapato. Não conseguia entender o porquê da existência de mulheres que também gostavam de tango, surrealismo e uísque, mas, preferiam a companhia de homens superficiais, pouco inteligentes e bem resolvidos financeiramente.
E ali estava eu, sentado em uma cadeira de acento de palha, tomando o vinho mais caro que pude comprar, ou o mais barato que encontrei, fumando e olhando pela janela do quarto da pensão em que morava. As mulheres que desfilavam pela rua exalavam primaveras pelos longos cabelos encantadores de solitários, olores que, na essência, além de puros, singelos, ainda tinham o poder de despertar feromônio com a maior suavidade possível dessa ação. Entretanto, o fato que mais me chamava atenção era o de sorrirem com o brilho de mil alvoreceres. Como podiam mulheres tão profundas, inteligentes, mas, amordaçadas por um sistema consumista e escusado, sorrir desta maneira? De repente o amplexo da solidão, tão vasto e negro quanto o pano da noite, vestiu-me feito a mortalha de um indigente. Tomei mais um gole de vinho e uma lágrima já turva correu por minha face até morrer sem sentido, como outras tantas, seca e calada. A sensação me foi parecida, não com o término de um grande amor, mas, sim, como quando a percepção sensorial começa a notar a falta deste amor na atmosfera e que do que exalava intensamente dos poros o olor de sete horizontes floridos agora era o pútrido da infecção dos minúsculos e milhares de cortes não cicatrizados na alma. Então, quando eu vi Suzana, a dona da pensão em que eu morava, atravessando a rua para entrar na casa, decidi declarar à imagem dela todas as minhas desilusões, as minhas flores secas e espinhos afiados os quais me foram regalados pelas mulheres que me relacionei ou não.
Caminhei até o criado mudo com passos embriagados e, da gaveta, peguei o revólver 38 que meu falecido pai me dera logo que mudei para esta cidade sem cor. Voltei para a janela e fechei a cortina. Anoitecia em todas as dimensões. Fui até a porta, abri uma fresta e me coloquei com a arma escondida, espiei na outra ponta do corredor onde chegava a dona da pensão. A chamei:
- Suzana, podes vir aqui, por favor?!
Ela se virou na minha direção um pouco assustada, mais um animal silvestre em meio a presas e predadores, olhou para o nada e veio. Estávamos a sós, era uma espécie de feriado e as outras pessoas que moravam lá estavam, provavelmente em algum lugar mais interessante. Suzana era uma mulher madura, muito séria desde que se tornara viúva; tinha o contorno dos quadris bem desenhado, a carne firme, olhos de menina.
Quando ela chegou de fronte ao meu quarto eu abri lentamente a porta e mostrei a arma. Ao mesmo tempo já fui lhe dando calmamente, como quem sabe o que faz, as devidas orientações:
- Não grita e faz o que eu mandar, a arma está carregada.
Ela espantou-se e quase engasgou com a própria saliva.
- Entra e deita na cama. – lhe convidei.
Ela baixou a cabeça, entrou e deitou. Usava um vestido comprido, leve, preto.
- Tira a roupa. – disse lhe apontando a arma.
Tirou o vestido e a calcinha. Seus olhos torrenciais derramavam tempestades de humilhação e vergonha. Me aproximei devagar, com olhar virgem e dentes de lobo. Deitei por cima dela, com a arma apontando para sua cabeça, e invadi sua intimidade com o exército de meus desamores, despetalei todo o seu jardim, percebi que lhe feria a alma, o sonho tomou traços muito sombrios para não ser chamado de pesadelo. Enfim, descarreguei rudemente todo o meu sofrer da maneira mais selvagem, exatamente como na natureza; eu era uma besta, uma fera.
Levantei e retornei para a cadeira. Suzana tremia sentada na cama. Vendo-a nua sob o luar que entrava insistente pelas cortinas pude perceber a pureza de seu corpo, estava tão vulnerável que via-se os anjos tristes de sua alma remendando o que eu acabara de depredar. Acendi um cigarro, minha mão tremia tomada por um alto nível de adrenalina. Olhei bem em seus olhos encharcados, em seu queixo, e lhe perguntei:
- Tu gozaste? Fala a verdade, tem uma arma apontada pra ti... –
Sua cabeça tremeu com uma intensidade maior respondendo que não.
Dei uma tragada funda no cigarro, o apaguei no cinzeiro, encostei bem o cano do revolver na minha têmpora direita e puxei o gatilho.
E ali estava eu, sentado em uma cadeira de acento de palha, tomando o vinho mais caro que pude comprar, ou o mais barato que encontrei, fumando e olhando pela janela do quarto da pensão em que morava. As mulheres que desfilavam pela rua exalavam primaveras pelos longos cabelos encantadores de solitários, olores que, na essência, além de puros, singelos, ainda tinham o poder de despertar feromônio com a maior suavidade possível dessa ação. Entretanto, o fato que mais me chamava atenção era o de sorrirem com o brilho de mil alvoreceres. Como podiam mulheres tão profundas, inteligentes, mas, amordaçadas por um sistema consumista e escusado, sorrir desta maneira? De repente o amplexo da solidão, tão vasto e negro quanto o pano da noite, vestiu-me feito a mortalha de um indigente. Tomei mais um gole de vinho e uma lágrima já turva correu por minha face até morrer sem sentido, como outras tantas, seca e calada. A sensação me foi parecida, não com o término de um grande amor, mas, sim, como quando a percepção sensorial começa a notar a falta deste amor na atmosfera e que do que exalava intensamente dos poros o olor de sete horizontes floridos agora era o pútrido da infecção dos minúsculos e milhares de cortes não cicatrizados na alma. Então, quando eu vi Suzana, a dona da pensão em que eu morava, atravessando a rua para entrar na casa, decidi declarar à imagem dela todas as minhas desilusões, as minhas flores secas e espinhos afiados os quais me foram regalados pelas mulheres que me relacionei ou não.
Caminhei até o criado mudo com passos embriagados e, da gaveta, peguei o revólver 38 que meu falecido pai me dera logo que mudei para esta cidade sem cor. Voltei para a janela e fechei a cortina. Anoitecia em todas as dimensões. Fui até a porta, abri uma fresta e me coloquei com a arma escondida, espiei na outra ponta do corredor onde chegava a dona da pensão. A chamei:
- Suzana, podes vir aqui, por favor?!
Ela se virou na minha direção um pouco assustada, mais um animal silvestre em meio a presas e predadores, olhou para o nada e veio. Estávamos a sós, era uma espécie de feriado e as outras pessoas que moravam lá estavam, provavelmente em algum lugar mais interessante. Suzana era uma mulher madura, muito séria desde que se tornara viúva; tinha o contorno dos quadris bem desenhado, a carne firme, olhos de menina.
Quando ela chegou de fronte ao meu quarto eu abri lentamente a porta e mostrei a arma. Ao mesmo tempo já fui lhe dando calmamente, como quem sabe o que faz, as devidas orientações:
- Não grita e faz o que eu mandar, a arma está carregada.
Ela espantou-se e quase engasgou com a própria saliva.
- Entra e deita na cama. – lhe convidei.
Ela baixou a cabeça, entrou e deitou. Usava um vestido comprido, leve, preto.
- Tira a roupa. – disse lhe apontando a arma.
Tirou o vestido e a calcinha. Seus olhos torrenciais derramavam tempestades de humilhação e vergonha. Me aproximei devagar, com olhar virgem e dentes de lobo. Deitei por cima dela, com a arma apontando para sua cabeça, e invadi sua intimidade com o exército de meus desamores, despetalei todo o seu jardim, percebi que lhe feria a alma, o sonho tomou traços muito sombrios para não ser chamado de pesadelo. Enfim, descarreguei rudemente todo o meu sofrer da maneira mais selvagem, exatamente como na natureza; eu era uma besta, uma fera.
Levantei e retornei para a cadeira. Suzana tremia sentada na cama. Vendo-a nua sob o luar que entrava insistente pelas cortinas pude perceber a pureza de seu corpo, estava tão vulnerável que via-se os anjos tristes de sua alma remendando o que eu acabara de depredar. Acendi um cigarro, minha mão tremia tomada por um alto nível de adrenalina. Olhei bem em seus olhos encharcados, em seu queixo, e lhe perguntei:
- Tu gozaste? Fala a verdade, tem uma arma apontada pra ti... –
Sua cabeça tremeu com uma intensidade maior respondendo que não.
Dei uma tragada funda no cigarro, o apaguei no cinzeiro, encostei bem o cano do revolver na minha têmpora direita e puxei o gatilho.
Cícero, texto que se impoe... impossível interromper a leitura... Forte, com vida própria...
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