quinta-feira, 26 de abril de 2012

Ana Belle e os Sonhos



“Não temas, birutinha. Simplesmente não temas.” Disse-me Ana Belle com olhos de quem nada enxerga. Suas retinas transbordavam cristais carregados de preciosas ilusões. “Não vou chorar”, ela me disse, “mas, acho importante tê-las para caso algum sentimento depressivo me ataque repentinamente” completou referindo-se às jóias que trazia no olhar. Não eram simples e salgadas lágrimas – quem duvida que fossem doces?! -, mas, sim, pequenas poças de lua, quase que petrificadas na vasta beleza da sua clara face.
Afastou-se virando para a enorme janela da sala. Olhou para alguma constelação e, empolgada, me sinalizou:
- Veja, birutinha, veja! São teus sonhos que se aproximam com passadas de “percheron”.
Sem sequer me mover da cadeira lhe respondi com um tom hostil, como que ofendido:
- Não sejas uma idiota, Ana Belle. Sabes, e sabes desde o começo, que não tenho sonhos. Não brinques com este tipo de assunto!
- Claro que não tens, seu bobo – disse-me entre risos – pois estão estes chegando agora. Ali.
- Se estiveres, morena, me pregando alguma espécie de peça, juro que minha consideração perderás por completo.
- Pois então, largue esta taça e veja com seus ébrios olhos.
Me ergui com alguma dificuldade da cadeira de praia com forro emendado. Chutei, quase que sem querer, o cinzeiro de casco de vaca. Aproximando-me, com passos de descrente, da janela. Lembrei Ana Belle: “Tua alegria abusiva cansa cada fio de minha barba rala.”
Então, abrindo, o máximo que pude, os olhos foi que vi. Eram surreais os cavalos que, num trote marchando, traziam meus sonhos. Sim, estes sonhos que almejei ter há tanto tempo. Os cavalos lembravam alguns de minha infância, e parecia, realmente, que cada um deles carregava consigo um pedacinho da esperança e da inocência a qual possuí quando menino.
- Viva, Ana Belle! – disse-lhe com um pouco da bebedeira curada, porém, mais entorpecido – Eu terei sonhos!
- Eu disse, seu bobo! – gritou entre gargalhadas.
Eu a abracei o mais forte que permitem os abraços carinhosos. Começamos a dançar. “Valsear” e rir. Era como se jamais houvéssemos derramado uma lágrima sequer. Ela tinha sua missão cumprida. Eu tinha sonhos, e como os sonhava.

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