
Era por volta de meia-noite, um vento gelado castigava vez por outra os que vagavam, assim como eu, sem rumo, noite afora e cidade a dentro. Quase na outra esquina da quadra pela qual eu caminhava sai de um bar uma moça gargalhando alto, como quem esqueceu a sanidade em algum fundo de garrafa, e vem em minha direção.
- Bêbado de novo, rapazinho? Tu não tomas jeito mesmo! – disse-me aos gritos e entre risos toscos.
Eu, como estava mais sóbrio do que ela poderia perceber, fiz-me de bêbado, realmente, para que ela se afastasse. A deixei falando sozinha.
Chegando frente ao bar, do qual ela saiu, surgiu-me a seguinte reflexão: “Se aquela moça saiu daí delirando daquela maneira, com certeza é aí que eu devo perder-me!”. Conversei um pouco com o rapaz que cuidava carros na frente do recinto. Não me disse nada de muito sensato, resolvi entrar de uma vez.
- Cinco reais e ganha uma cerveja.- disse-me o homem que estava na porta.
A princípio não pareceu-me um ótimo negócio, porém, o som que chorava lá do interior do “Bar e Restaurante Liberdade” era de fato tentador. Paguei os cinco e entrei.
Havia bastante gente no local. De começo nem prestei atenção em ninguém, fui direto ao balcão, pedi uma cerveja, a servi em um copo e me acomodei deliciosamente a apreciar o som que brotava dos cavaquinhos chorões e do violão, sensato em sua base. Comecei a sintetizar uma análise do local, das pessoas, do todo e das partículas.
Reuniam-se alguns intelectuais e toda a gente do povo que havia ali descoberto a liberdade, talvez, não por coincidência ou ironia. Um cabeludo fumava um charuto e jogava para cima sua fumaça como se nem estivesse ali, era acompanhado por uma bela morena de vestido negro e com uma rosa adornando-lhe o peito. Um senhor, dono de um notável bigode moreno, fechava os olhos e se fazia um fragmento componente da melodia que envolvia cada poro do ambiente, qual a fumaça, que ao sair dos cigarros bailava em um corpo só rente ao forro. Outro senhor, grisalho e de pele escura, ria alto e acomodava para trás seu penteado, vaidoso como a primavera. Um homem alto bebia uma cerveja com empenho de quem quer esquecer uma dor maldosa e insistente, olhava a todas as mulheres com desdém, como se fosse alguma que o haveria machucado um dia, talvez. Entre tantas figuras singulares e dignas de atenção meus olhos pousaram na dona da noite, a lua entre nuvens e estrelas. Seu sorriso era único, anunciava que era da dona de seu próprio mundo, da rainha de si mesma. Observava e divertia-se deliciosamente auto-suficiente, demonstrando em seu olhar que possuía tudo o que precisava em sua própria alegria. Cantava de sua mesa acompanhando o grupo, mas, era ela a estrela da noite, o palco era seu, meu olhar também.
De repente, seus olhos encontraram os meus. Foi um choque. Tive vontade de levantar-me e sair porta a fora instintivamente. Quando recobrei a razão vi que ela, ao perceber meu olhar, acendeu mais ainda seu sorriso provocando, assim, o meu. Então, segui tentando fazer a analise, porém, já não havia mais o que eu conseguisse analisar com a impressão clara da presença daquele olhar, o qual sempre que eu verificava-o se voltava para mim novamente.
Entre uma cerveja e outra foi aumentando minha vontade de desvendar aquele sorriso que fazia Monaliza parecer um quebra-cabeça infantil. Aproximei-me. Ela me olhou e sorriu.
- Posso sentar?!- perguntei apontando para uma cadeira vazia que se encontrava a seu lado.
- Que tu achas? – perguntou-me ela sorrindo.
Puxei a cadeira e sentei.
-Tu tens um nome, não é?-
Ela deu uma risada gostosa e respondeu-me:
-Me chamo Maria, só Maria. E tu, também tens algum, eu suponho...-
-Me chamo Pedro, muito prazer.-
Ela sorriu. Eu não sabia mais o que dizer. Estava suficientemente alcoolizado para perder a noção das coisas e sabia disso, o que me convencia a não falar tudo o que me passava pela cabeça. Então, ela me fez o favor de falar:
-Este lugar sexta-feira é único, não é?
-Olha, por incrível que pareça, é a primeira vez que entro aqui.
-Não parece incrível, não- disse ela entre risos
-É mesmo?- perguntei impressionado –Mas, por quê?!
-A forma com que tu analisas a tudo e a todos te entrega com facilidade.
-Mas, se tu percebeste isso, de certa forma, também estavas me analisando, to errado?!
Ela simplesmente riu. Nada me respondeu. Senti-me meio patético ou bêbado. Propus a ela que experimentasse analisar também:
-Já percebeste que o grupo, se olharmos como um todo, toca meio mecanicamente. Cada um lembra a engrenagem de uma máquina perfeita.
-E se analisares engrenagem por engrenagem, ou seja, músico por músico, perceberás o sentimento no olhar de cada um, e o quão pouco mecânico se torna o individual. – disse ela complementando meu raciocínio.
-Talvez, pareçam uma máquina pelo entrosamento, pelo tempo com o qual tocam juntos.- justifiquei baseado no grisalho coletivo do grupo.
Ela concordou com a cabeça.
Um negro alto, de idade um tanto avançada, barbudo e simpático aproximou-se e convidou-a pra dançar, ela dançou. Apenas ela dançou, ninguém mais no salão, o mundo era deserto, só existia seus quadris em um raio de tantos quilômetros quanto a vista podia alcançar. Seu corpo era como um redemoinho no meio de um vastíssimo jardim, como a primavera inteira em um liquidificador. Ela me olhava por cima de seu ombro esquerdo e sorria.
Comecei a perceber o resto do todo. O sujeito que estava empenhado em beber, assim que cheguei, agora havia mudado para o vinho e estava muito pior do que eu. Cantava, olhava para o teto e dançava só. A música unia todos os presentes em uma só atmosfera, tanto os que dançavam quanto os que sentados acompanhavam cantando. Se não me engana a memória a música era A Volta do Boêmio, de Nelson Gonçalves. Eu ria e resmungava:
-“Ele voltou, o boêmio voltou novamente”- apesar de nunca haver me afastado completamente da boemia.
Um homem com as narinas esbranquiçadas de cocaína aproximou-se e sentou próximo de mim.
-Posso sentar aqui, “né” “Brother”?- perguntou-me
-Claro, cara.- respondi.
Maria voltou a sentar-se ao meu lado.
-Tu és muito bonita!- disse o cidadão que havia se juntado há pouco.
Ela me olhou e rimos.
Conversamos sobre milhares de coisas sem mudar de assunto e com uma frase apenas, talvez. A maneira com a qual ela me tocava e me olhava os olhos e, assim, a alma enquanto conversávamos era como se dançássemos com a magia do vento. As almas eram duas flores dançando no outono triste para as flores.
Não lembro exatamente o que aconteceu depois, mas, acordei hoje lembrando que sonhei com milhares de tartarugas e seus filhotes cada uma mais livre que a outra, andando pela rua podendo ir para onde quisessem, porém, a dificuldade que têm para se locomover as impede de ter sonhos, esperanças e de usufruir de tal liberdade. Olhei para o lado me percebi sozinho, de ressaca e com a cabeça enfiada dentro do próprio casco.
- Bêbado de novo, rapazinho? Tu não tomas jeito mesmo! – disse-me aos gritos e entre risos toscos.
Eu, como estava mais sóbrio do que ela poderia perceber, fiz-me de bêbado, realmente, para que ela se afastasse. A deixei falando sozinha.
Chegando frente ao bar, do qual ela saiu, surgiu-me a seguinte reflexão: “Se aquela moça saiu daí delirando daquela maneira, com certeza é aí que eu devo perder-me!”. Conversei um pouco com o rapaz que cuidava carros na frente do recinto. Não me disse nada de muito sensato, resolvi entrar de uma vez.
- Cinco reais e ganha uma cerveja.- disse-me o homem que estava na porta.
A princípio não pareceu-me um ótimo negócio, porém, o som que chorava lá do interior do “Bar e Restaurante Liberdade” era de fato tentador. Paguei os cinco e entrei.
Havia bastante gente no local. De começo nem prestei atenção em ninguém, fui direto ao balcão, pedi uma cerveja, a servi em um copo e me acomodei deliciosamente a apreciar o som que brotava dos cavaquinhos chorões e do violão, sensato em sua base. Comecei a sintetizar uma análise do local, das pessoas, do todo e das partículas.
Reuniam-se alguns intelectuais e toda a gente do povo que havia ali descoberto a liberdade, talvez, não por coincidência ou ironia. Um cabeludo fumava um charuto e jogava para cima sua fumaça como se nem estivesse ali, era acompanhado por uma bela morena de vestido negro e com uma rosa adornando-lhe o peito. Um senhor, dono de um notável bigode moreno, fechava os olhos e se fazia um fragmento componente da melodia que envolvia cada poro do ambiente, qual a fumaça, que ao sair dos cigarros bailava em um corpo só rente ao forro. Outro senhor, grisalho e de pele escura, ria alto e acomodava para trás seu penteado, vaidoso como a primavera. Um homem alto bebia uma cerveja com empenho de quem quer esquecer uma dor maldosa e insistente, olhava a todas as mulheres com desdém, como se fosse alguma que o haveria machucado um dia, talvez. Entre tantas figuras singulares e dignas de atenção meus olhos pousaram na dona da noite, a lua entre nuvens e estrelas. Seu sorriso era único, anunciava que era da dona de seu próprio mundo, da rainha de si mesma. Observava e divertia-se deliciosamente auto-suficiente, demonstrando em seu olhar que possuía tudo o que precisava em sua própria alegria. Cantava de sua mesa acompanhando o grupo, mas, era ela a estrela da noite, o palco era seu, meu olhar também.
De repente, seus olhos encontraram os meus. Foi um choque. Tive vontade de levantar-me e sair porta a fora instintivamente. Quando recobrei a razão vi que ela, ao perceber meu olhar, acendeu mais ainda seu sorriso provocando, assim, o meu. Então, segui tentando fazer a analise, porém, já não havia mais o que eu conseguisse analisar com a impressão clara da presença daquele olhar, o qual sempre que eu verificava-o se voltava para mim novamente.
Entre uma cerveja e outra foi aumentando minha vontade de desvendar aquele sorriso que fazia Monaliza parecer um quebra-cabeça infantil. Aproximei-me. Ela me olhou e sorriu.
- Posso sentar?!- perguntei apontando para uma cadeira vazia que se encontrava a seu lado.
- Que tu achas? – perguntou-me ela sorrindo.
Puxei a cadeira e sentei.
-Tu tens um nome, não é?-
Ela deu uma risada gostosa e respondeu-me:
-Me chamo Maria, só Maria. E tu, também tens algum, eu suponho...-
-Me chamo Pedro, muito prazer.-
Ela sorriu. Eu não sabia mais o que dizer. Estava suficientemente alcoolizado para perder a noção das coisas e sabia disso, o que me convencia a não falar tudo o que me passava pela cabeça. Então, ela me fez o favor de falar:
-Este lugar sexta-feira é único, não é?
-Olha, por incrível que pareça, é a primeira vez que entro aqui.
-Não parece incrível, não- disse ela entre risos
-É mesmo?- perguntei impressionado –Mas, por quê?!
-A forma com que tu analisas a tudo e a todos te entrega com facilidade.
-Mas, se tu percebeste isso, de certa forma, também estavas me analisando, to errado?!
Ela simplesmente riu. Nada me respondeu. Senti-me meio patético ou bêbado. Propus a ela que experimentasse analisar também:
-Já percebeste que o grupo, se olharmos como um todo, toca meio mecanicamente. Cada um lembra a engrenagem de uma máquina perfeita.
-E se analisares engrenagem por engrenagem, ou seja, músico por músico, perceberás o sentimento no olhar de cada um, e o quão pouco mecânico se torna o individual. – disse ela complementando meu raciocínio.
-Talvez, pareçam uma máquina pelo entrosamento, pelo tempo com o qual tocam juntos.- justifiquei baseado no grisalho coletivo do grupo.
Ela concordou com a cabeça.
Um negro alto, de idade um tanto avançada, barbudo e simpático aproximou-se e convidou-a pra dançar, ela dançou. Apenas ela dançou, ninguém mais no salão, o mundo era deserto, só existia seus quadris em um raio de tantos quilômetros quanto a vista podia alcançar. Seu corpo era como um redemoinho no meio de um vastíssimo jardim, como a primavera inteira em um liquidificador. Ela me olhava por cima de seu ombro esquerdo e sorria.
Comecei a perceber o resto do todo. O sujeito que estava empenhado em beber, assim que cheguei, agora havia mudado para o vinho e estava muito pior do que eu. Cantava, olhava para o teto e dançava só. A música unia todos os presentes em uma só atmosfera, tanto os que dançavam quanto os que sentados acompanhavam cantando. Se não me engana a memória a música era A Volta do Boêmio, de Nelson Gonçalves. Eu ria e resmungava:
-“Ele voltou, o boêmio voltou novamente”- apesar de nunca haver me afastado completamente da boemia.
Um homem com as narinas esbranquiçadas de cocaína aproximou-se e sentou próximo de mim.
-Posso sentar aqui, “né” “Brother”?- perguntou-me
-Claro, cara.- respondi.
Maria voltou a sentar-se ao meu lado.
-Tu és muito bonita!- disse o cidadão que havia se juntado há pouco.
Ela me olhou e rimos.
Conversamos sobre milhares de coisas sem mudar de assunto e com uma frase apenas, talvez. A maneira com a qual ela me tocava e me olhava os olhos e, assim, a alma enquanto conversávamos era como se dançássemos com a magia do vento. As almas eram duas flores dançando no outono triste para as flores.
Não lembro exatamente o que aconteceu depois, mas, acordei hoje lembrando que sonhei com milhares de tartarugas e seus filhotes cada uma mais livre que a outra, andando pela rua podendo ir para onde quisessem, porém, a dificuldade que têm para se locomover as impede de ter sonhos, esperanças e de usufruir de tal liberdade. Olhei para o lado me percebi sozinho, de ressaca e com a cabeça enfiada dentro do próprio casco.
Forte, Cícero... Parece que vejo o ambiente e os personagens...
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